quinta-feira, maio 10, 2018

Passagem de ano na Ilha da Madeira

A Madeira é uma ilha repleta de tradições caraterísticas e de eventos peculiares, que cada vez mais são conhecidos nos quatro cantos do mundo. Um deles é a passagem de ano. Este espetáculo foi reconhecido oficialmente pelo livro de recordes do Guiness, em 2006, como o "O maior espetáculo de fogo-de-artifício do Mundo".
         Este evento fortalece a identidade da ilha visto que, nesta época, milhares de turistas visitam a região. No ano transato, chegaram à ilha cerca de 40 mil turistas entre o dia 28 e 31 de Dezembro por via aérea e cerca de 20 mil turistas por via marítima (num total de dez navios, sendo que há navios que ficam fundeados no porto, enquanto outros ficam ao largo) com o simples propósito de assistir à famosa passagem de ano. A administração dos portos da Madeira registou o maior movimento dos últimos dez anos na Pontinha no dia 31 de Dezembro.
         O governo regional investe a cada ano cerca de 1 milhão de euros em oito minutos de fogo-de-artifício, disparado de 37 postos, que envolve cerca de 132 mil disparos. Todos estes postos são colocados na cidade do Funchal, localizados na orla marítima e baixa citadina, no anfiteatro do Funchal, e no mar. Neste dia, a cidade está ainda com as deslumbrantes iluminações postas para a época festiva, o que atrai as pessoas para a realização de passeios, principalmente na avenida do mar, antes da meia-noite chegar.
         Tradicionalmente, a maioria das pessoas de toda a ilha deslocam-se para o Funchal para assistir a este grande evento. Umas optam por passá-lo em casa ou na casa de algum familiar, com vista propícia a ver o fogo-de-artificio, outras optam por ver do centro da cidade. Variam mesmo de ano para ano o local de onde presenciam a experiência, que pode ser vivida de diferentes maneiras dependendo do lugar de onde se encontram. Os oito minutos são vividos intensamente (cheios de sentimentos e emoções) devido ao céu iluminado das mais diversas cores e pelos ruídos intensos provenientes tanto do fogo-de-artifício como das buzinas dos navios. Na minha opinião, a principal razão que leva a este evento ser reconhecido mundialmente é, para quem participa, a facilidade com que somos envolvidos pela experiência, devido a não haver apenas uma frente de fogo-de-artifício mas sim em toda a volta da cidade.
         Posto isto, este evento é bastante apreciado tanto pelos residentes como pelos turistas provenientes de todas as partes do mundo, que vê as expetativas elevadas devido ao reconhecimento positivo do acontecimento. O governo regional empenha a sua força para que essas expetativas sejam superadas, com vista à promoção de novas visitas à ilha e a transmitir uma boa imagem.
         Concluo aconselhando a quem tiver a possibilidade de transitar de ano vivendo desta experiência que o faça, pois é inesquecível.

Diogo José Sousa Teixeira

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2017/2018)

terça-feira, maio 08, 2018

Turismo militar em Guimarães: um “campo” subaproveitado

Guimarães é uma cidade impregnada de um forte significado simbólico e cultural. Considerada a cidade “Berço da Nação”, por ser a cidade onde nasceu o primeiro rei de Portugal, detém uma componente histórica rica e notável. A acreditação do seu Centro Histórico como Património Cultural da Humanidade, em dezembro de 2011, pela UNESCO, veio aumentar ainda mais o seu potencial em termos turísticos. E a atribuição da menção de Cidade Europeia da Cultura, no ano de 2012, também permitiu, de forma exponencial, dar a conhecer o vasto património cultural desta cidade. Consequentemente, tem sido notório o crescimento do turismo no centro urbano de Guimarães.
O Turismo é um fenómeno global com acentuadas diferenciações e, no que concerne à cidade de Guimarães, sobressai o Turismo Cultural, que se tem vindo a revelar como uma mais-valia em termos de fatores de desenvolvimento local. Trata-se de um ato económico pois possibilita a satisfação de uma necessidade da parte do turista e, para além disso, contribui para o desenvolvimento alargado de vários setores da atividade económica, concretamente, no que se refere ao fornecimento de bens e serviços, contribuindo para a criação e manutenção de inúmeros postos de trabalho.
Porque os impactes criados pelo turismo têm uma tradução essencialmente local, importa que as diversas políticas de atuação, na área do turismo, sejam objeto de um planeamento estratégico capaz de criar cadeias de valor, e que permita a satisfação dos turistas, ou seja, que vá no sentido das suas necessidades.
Efetivamente, o turismo não é uma área estanque e as necessidades em termos de turismo vão sofrendo evoluções ao longo do tempo. Assim, não obstante a reconhecida importância da cidade de Guimarães e do seu inigualável património e valor histórico, urge refletir sobre as tendências atuais, a fim de responder às novas exigências e aspirações da parte dos turistas. 
Neste contexto, o Turismo Militar, como segmento do Turismo Cultural, criado em 2014 pelo Ministério da Defesa Nacional Português, tem-se vindo a assumir como um novo e promissor elemento que tem vindo a ser impulsionado especialmente na região centro. Descrito como um projeto cultural inovador, agregador e atrativo, tem um enorme potencial em termos de mercado interno e externo. Uma das abordagens do Turismo Militar consiste na valorização dos Campos de Batalha, nomeadamente através do “storytelling”.
No que concerne à cidade de Guimarães, esta “respira” história e no seu centro histórico existem monumentos de grande destaque, como por exemplo o Castelo de Guimarães ou o Paço dos Duques, que se tornaram locais de visita obrigatória. Contudo, a cerca de cinco quilómetros do centro, concretamente, em S. Torcato, existe um Campo de Batalha que muitos desconhecem – o Campo da Ataca. Terá sido nesse local que, em 24 de junho de 1128, D. Afonso Henriques venceu os espanhóis e conquistou a soberania do Condado, iniciando-se o processo de independência de Portugal.
Apesar de em 1996, ter sido inaugurado nesse local um arranjo artístico-monumental que celebra este importante acontecimento, com sete estátuas de cinco metros, muitos desconhecem a sua existência, situação para a qual contribuem a parca sinalização e as difíceis acessibilidades.
Inclusivamente, as festividades com cariz histórico, de que são exemplo as Festas Afonsinas e as Festas Gualterianas, circunscrevem-se sempre ao centro da cidade, deixando de parte este local tão rico de história. Parece-nos assim que o Campo da Ataca é um local promissor, mas subaproveitado, e que poderia vir a constituir um dos pontos-chave na exploração do Turismo Militar no Norte de Portugal.
Em jeito de desafio, compete aos agentes locais da cidade de Guimarães adotar uma atitude proativa face ao novo Turismo Militar, partindo dos recursos valiosos que a cidade já detém, e não só incrementar o turismo no centro histórico mas alargá-lo também à periferia.

Bruna Ferreira

Bibliografia
Coelho, J. (2011). Turismo Militar como segmento do Turismo Cultural: Memória, Acervos, Expografias e Fruição Turística. (Mestrado em em Desenvolvimento de Produtos de Turismo Cultural), Instituto Politécnico de Tomar. Disponivel em: file:///C:/Users/Asus/Downloads/Turismo%20Militar_JPCoelho.pdf

Marques, V. (2011). Turismo cultural em Guimarães : o perfil e as motivações do visitante. (Mestrado em Património e Turismo Cultural), Universidade do Minho. Disponivel em: http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/18041/1/Tese%20-%20Vitor%20Marques%20-%202011.pdf 

Webgrafia
http://visao.sapo.pt/exame/2016-04-14-Portugal-na-rota-do-turismo-militar


(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2017/2018)

sexta-feira, maio 04, 2018

TURISMO EM SÍTIOS DO PATRIMÓNIO MUNDIAL

       Com o advento do processo de globalização, tem-se obtido cada vez mais informação e uma grande facilidade para o turismo. Ao falarmos em turismo em sítios do Património Mundial, vale destacar a importância da compreensão destes tanto a nível mundial como para o local em que se encontram, e nas inúmeras possibilidades que geram em torno de si.
      A receita gerada pelo turismo nestes locais vem a fornecer um meio de sobrevivência para a manutenção e gestão desses sítios que, por vezes, carecem de apoio governamental e de uma divulgação maior para a preservação, salvaguarda e programas educacionais e de informações.
      O turismo nos dá a condição de aproximação e compreensão do património natural e cultural, como nos apresenta a Convenção do Património Mundial, promovendo suporte financeiro a longo prazo para a gestão do sítio, para as comunidades locais e para os operadores de turismo. Porém, o excesso de turistas e a falta de informação quanto à preservação podem acarretar problemas ao Valor Universal Excepcional[1] e degradar a experiência da qualidade da visita do turista ao local, quando da não adequação das instalações oferecidas.
      Os sítios de Património Mundial são destinos maravilhosos que atraem um grande número de visitantes, gerando benefícios econômicos através da marca Património Mundial e oferecendo grandes contribuições para as economias regionais e nacionais. Gestores dos bens de património mundial por vezes não se dão conta do retorno econômico do turismo para as atividades de gestão no campo. As pesquisas realizadas revelam que os visitantes não se incomodam de pagar taxas de visitação se uma parte substancial destas forem destinadas à manutenção, proteção e custos operacionais destes sítios. O desafio entretanto é respeitar os objetivos de conservação (material e imaterial) da Convenção do Património Mundial com fulcro em um turismo que seja  ao mesmo tempo sustentável e equitativo.
  Sítios de Património Mundial devem ser locais de importância, os quais transmitam conhecimento relacionado com os seus valores de maneira específica e também em expressão da perícia na gestação das áreas protegidas de modo a assegurar a continuidade da preservação do local e do bem.
   O artigo 27 da Convenção do Património Mundial[2] menciona de modo taxativo qual o papel dos programas  e informações educacionais :                    
                                        “ Artigo 27
1.Os Estados-partes da presente Convenção esforçar-se-ão por todos os meios apropriados, especialmente por intermédio dos programas de educação e de informação, em intensificar o respeito e o apreço de seu povo pelo património cultural e natural definido nos artigos 1 e 2 da Convenção”.

  Entretanto, para desenvolver projetos educacionais que possam vislumbrar êxito, faz-se necessário o empenho da equipe de gestão dos Sítios de Património Mundial juntamente com a comunidade local, pois esta interação aponta a importância do local, de suas necessidades, gerando um orgulho para os membros da comunidade e uma relevância do sítio, a nível nacional  e, se possível,  global.
    Os projetos educacionais nesses Sítios de Património Mundial são de extrema importância pois tratam dos chamados direitos de terceira geração, como classifica Bonavides[3], a saber: direito ao desenvolvimento, à paz, ao meio ambiente, à comunicação e ao património comum da humanidade.
   Encontra-se a plena afirmação desses direitos no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos adotado pela Assembléia Geral da ONU, em 1966, cujo artigo 1º afirma: “Todos os povos têm direito à autodeterminação (...). Em virtude desse direito, determinam livremente seu estatuto político e asseguram livremente seu desenvolvimento econômico, social e cultural”[4].
    Salvaguardar é um dever de todos para com todos. O património é um legado para as presentes e futuras gerações.
 
Andrea Caetano Moleirinho

Referências
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. São Paulo: Malheiros, 1997.
Convenção para Protecção do Património Mundial, Cultural e Natural. Disponível em: http://www.patrimoniocultural.gov.pt/media/uploads/cc/ConvencaoparaaProteccaodoPatrimonioMundialCulturaleNatural.pdf.
COSTA, Beatriz Souza. A Proteção do Proteção Cultural como um Direito Fundamental: Património Cultural e sua Tutela Jurídica. Rio de Janeiro: Editora Lumen Júris, 2009.
 Gestão do Patrimônio Mundial natural - Brasília: UNESCO Brasil, IPHAN, 2016.


[1] O VUE é descrito nas Diretrizes Operacionais como: “significado cultural e/ou natural que é excepcional a ponto de transcender as fronteiras nacionais e ser importantes para gerações presentes e futuras de toda a humanidade. Como tal, a proteção permanente deste património é da mais alta importância para toda comunidade internacional ( Parágrafo 49 ).
[2] Convenção para Protecção do Património Mundial, Cultural e Natural. Disponível em http://www.patrimoniocultural.gov.pt/media/uploads/cc/ConvencaoparaaProteccaodoPatrimonioMundialCulturaleNatural.pdf. Acesso em 18 de abril de 2018.
[3] BONAVIDES, Paulo. Ciência e Política. 10. ed. São Paulo: Malheiros, 2000. p.523.
[4] COSTA,Beatriz Souza. A Proteção do Património Cultural como um Direito Fundamental: Patrimònio Cultural e sua Tutela Jurídica. Rio de Janeiro: Editora Lumen Júris, 2009. p.44-45.


(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Património Cultural e Políticas de Desenvolvimento Regional”, do curso de Mestrado em Património Cultural do ICS, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2017/2018)

sábado, abril 28, 2018

O Turismo do Chá: um novo turismo?

O chá, como sabemos, é conhecido e consumido mundialmente, ainda que em certos países, como é o caso do Japão, China e Inglaterra, essa prática seja recebida com mais entusiamo. No caso de Portugal, sabemos que o hábito de beber chá não é o mais praticado, mas é na ilha portuguesa dos Açores que está sediada uma das fábricas de chá mais visitada do mundo: a Fábrica de Chá Gorreana. Esta fábrica, localizada na ilha de São Miguel, corresponde uma das mais antigas plantações de chá da Europa já que a sua atividade remonta ao ano de 1883, fruto de um negócio de família liderado por Ermelinda Gago da Câmara e José Honorato.
Hoje em dia, esta fábrica-museu é reconhecida internacionalmente e recebe milhares de visitas turísticas, mais concretamente, cerca de 27 mil visitantes por ano, segundo uma notícia da RTP, de 2008. Por isso, não é de admirar que as visitas guiadas tenham constituído uma aposta de sucesso.
Durante a visita, o turista é convidado a provar o chá nas suas mais variadas fases de maturação: chá branco, chá verde e chá preto, além das variedades em que lhes são adicionados elementos aromatizantes, como por exemplo o chá preto com cascas de laranja! Nesta visita, o turista também poderá contemplar o espólio de máquinas Marshall datadas de 1840, ainda em funcionamento. Há, ainda, a possibilidade do turista experienciar a atividade de colheita do chá, como as conhecidas “apanhadeiras”.
No caso de Portugal Continental, o negócio do chá tem já dado provas de que há interesse por parte dos consumidores e que há turistas interessados em saber mais sobre esta prática milenar. É, no entanto, o clima de Portugal, mais propriamente o clima do litoral português, que proporciona a realização do cultivo de chá nos campos de Nina Gruntkowski e Dirk Niepoort. Este casal, cujas profissões anteriores nada tinham que ver com o atual negócio, possuem uma vasta área, onde produzem o seu próprio chá e onde, por vezes, contam com a ajuda de um outro casal, japonês. Hoje em dia, o chá que comercializam é já revendido em vários pontos do país e tem demonstrado que os portugueses, afinal, não perderam o seu bom costume, não fossem eles os responsáveis pela introdução da camelia sinensis na Europa.
Com toda a boa receção desta prática, o casal decidiu abrir o seu campo de trabalho aos portugueses e a todos aqueles que nutrem interesse por conhecê-lo. Portanto, todas as últimas sextas-feiras de cada mês, nos horários das 10h30 e 14h30, é possível participar nas visitas guiadas lideradas por um elemento do casal. Para tal, basta marcar a visita enviando um email para o endereço info@chacamelia.com.
O mais interessante ainda, neste projeto, é a junção entre culturas. Poderíamos associar de imediato, com esta afirmação, a junção de hábitos e costumes de países diferentes, mas o casal alemão vai mais longe ao cruzar variedades de chá japonês com plantas que Portugal conhece bem como, por exemplo, lúcia-lima, flor de sabugueiro, pétalas de rosa, entre outras. Recentemente, o casal decidiu fazer algo inédito: o que é que torna o chá ainda mais português? Um toque de Vinho do Porto! Isso mesmo! Mas desengane-se quem pense que o processo se realiza como o velho hábito inglês de adicionar leite ao chá, não.  O que é feito é muito simples: as folhas da camelia sinensis vão direitinhas para as velhas pipas do vinho do Porto e adquirem toda a complexidade desta bebida glamourosa. Durante seis meses, o chá adquire propriedades muito interessantes, com notas diversificadas, e este método está na origem do nome do chá: PipaChá!
Ainda há outra pérola do chá em território nacional: a Companhia Portugueza do Chá, em Lisboa. Bem sabemos que a capital é o epicentro do turismo em Portugal e que conta com milhares de visitantes anualmente.  Se é óbvio que o Mosteiro de Jerónimos, assim como a Torre de Belém, são pontos obrigatórios nos guias turísticos da cidade, tal cenário não seria de imaginar para uma loja de chá. Mas esta loja não é uma loja qualquer. Mais de duzentos lotes de chá de todo o mundo são vendidos neste local tão recôndito situado na Rua do Poços dos Negros. E, uma vez lá, tem-se a sensação de que estamos realmente num local de visita obrigatória. É cada vez maior a procura por este produto, assim como por eventos relacionados com ele, desde workshops a visitas e experiências nos campos de chá. Para o futuro, lança-se o desafio de Portugal pensar em explorar este potencial; a possibilidade de criar um roteiro dedicado ao chá seria mais um ponto de interesse turístico e que poderia, muito certamente, arrecadar vantagens económicas. E a Fábrica-museu Gorreana, os Campos de Nina e Dirk assim como a Companhia do Chá Portugueza são prova viva disso.

Joana Virgínia Lopes

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Património Cultural e Políticas de Desenvolvimento Regional”, do curso de Mestrado em Património Cultural do ICS, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2017/2018)

sexta-feira, abril 27, 2018

AUTO-SUFICIÊNCIA ALIMENTAR NO MOXICO: UTOPIA OU PRAGMATISMO?

Comummente conhecida como a capital da ‘‘Paz em Angola” (uma das ex-províncias ultramarinas de Portugal - DRP, 1951, serie n.º 117), Moxico (na era colonial designava-se por Vila Luso) é atualmente a maior província de Angola, estado independente, com aproximadamente 200 023 km2 de extensão territorial, e dista cerca de 1300 km da capital do país, Luanda (outrora, São Paulo d’Assunção).
Com potencial natural (clima favorável, terras aráveis, água em abundância) eminentemente eficiente para desencadear e galvanizar atividades agropecuárias e, com isto, ser independente no que concerne à alimentação local, e, por conseguinte, dinamizar a generalidade da sua economia regional, caricatamente, assistimos de forma recorrente cenários adversos. Ora, a par de tudo isto, pasma-nos o facto de Moxico estar desde 2002 (após a proclamação dos acordos de paz e reconciliação nacional) mergulhada em situações de fome, com particular incidência nos últimos 3 anos, só para referir este horizonte temporal do qual se tem alguma memória.
Cientes de algumas iniciativas protagonizadas pelo Governo Angolano, nomeadamente em matéria de desminagem do território (desde 2002), os programas Angola Investe (2012) e Crédito Agrícola de Campanha (2010), os projetos fazenda Agro-pecuária de Sacassange (2012) e o Pólo de Desenvolvimento Agro-Industrial de Camaiangala (2014), de forma geral, foram concebidos como estratégias orientadoras que visavam o alcance de vários desideratos, mormente:  ‘Aumentar a produção doméstica; Reduzir a dependência nacional das importações; Fortalecer o tecido empresarial nacional; Promover a criação de emprego; e Diversificar fontes de receitas fiscais e de divisas’.
Ainda assim, todas as premissas inicialmente previstas para curto-médio prazo fracassaram. Dentre as várias razões, destacam-se as débeis políticas de concessão de crédito (políticos que se intitulam de comerciantes ou empresários mas que, em muitos casos, sem empresa legalmente constituída e ou sem instalações), cujos financiamentos que lhes são concedidos quase sempre não são aplicados nos projetos agrícolas enunciados aquando da mobilização do respetivo crédito, deixando à mercê da sorte os poucos e verdadeiros potenciais empresários agrónomos. Associado a isto, temos evidências das irrisórias verbas do Orçamento Geral de Estado que são atribuídas ao sector da agricultura, que, para além de escassas, são mal orientadas.
Tal como enunciámos anteriormente, a região tem um manancial hídrico enorme, por sinal, a maior bacia hidrográfica do país. Contudo, tal não é aproveitado ao máximo afim de dinamizar o sector agropecuário e, com isto, combater a fome. Assistimos recorrentemente, em pleno século XXI, a práticas de agricultura da era neolítica, que infelizmente têm consequências degradantes sobre a qualidade dos solos e não só.
Ao ouvirmos destilar frequentemente oratórias de autossuficiência alimentar na província do Moxico, julgamos ser mera utopia e não realismo político, pois não se consegue perceber o pragmatismo dos procedimentos tendentes a erradicar a fome na região.
A autossuficiência alimentar faz-se com ações sérias e concretas, com a dinamização de toda estrutura setorial local, criando para o efeito equipamentos (centros de veterinária, indústrias transformadoras, fábricas, etc.), infraestruturas (estradas, linhas férreas, pontes duradouras, sistemas de irrigação, linhas de transporte de eletricidade, etc.) e serviços (pessoas coletivas/e ou individuais a atuar no domínio dos transportes, hotelaria, atividades de comércio agrícola etc.) nas zonas rurais e, concomitantemente, envolver saberes com elevadas e reconhecidas competências.
Entretanto, para que isto aconteça é necessário que o estado assuma um papel menos interventivo, cingindo-se à regulação e harmonização do ambiente de negócio. Em vista disso, o que assistimos de algum tempo para cá é a um estado que encabeça projetos milionários cujos desfechos não têm sido bem-sucedidos, marcados quase sempre por privatizações desleais e, com isto, soterrando de forma brutal as classes menos favorecidas que, para já, são a esmagadora maioria da população.
Em suma, o modus operandi em vigência face ao combate à fome têm por finalidade a manutenção da acumulação primitiva de recursos para um conjunto de pessoas devidamente identificadas, pelo que é urgente a inversão de atitudes.

Capalo Gabriel Katumbi

BIBLIOGRAFIA
Diário da República Portuguesa (1951), Lei n.ª 2/048, Constituição da República, I série, n.º 117, de 11 de Junho.
http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/economia/2018/0/2/Maior-fazenda-agropecuaria-Moxico-paralisa-actividades,3f6cd547-5ccc-47e1-b277-fd848a6f3904.html
http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/angola-acontece/2016/7/35/Moxico-Projecto-Camaiangala-Inicio-revolucao-milho-pais,1b77cd47-beda-480e-ada8-f46c563fbbd7.html

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia e Política Regional Regional”, do curso de Mestrado em Geografia do ICS, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2017/2018)

Guimarães, Capital Europeia da Cultura 2012 e os investimentos nos equipamentos culturais

Em Outubro de 2006, iniciou-se a candidatura da cidade de Guimarães a Capital Europeia da Cultura e foi formalmente concluída em Maio de 2009. Nessa mesma data, o Conselho Europeu de Ministro da Cultura da União Europeia designou a cidade de Guimarães, conjuntamente com a cidade de Maribor, como Capitais Europeias da Cultura do ano 2012.
Para a implementação do programa de Guimarães 2012 foi constituída por lei, em meados de 2009, a Fundação Cidade de Guimarães (FCG). A Fundação Cidade de Guimarães dispôs de um orçamento de quase 36,5 milhões de euros, dos quais 22,5 milhões se destinaram ao programa cultural. Os restantes 14 milhões de euros dividiram-se, aproximadamente em partes iguais, em despesas de comunicação e marketing e despesas de funcionamento.  
No entanto, se os cerca de 36,5 milhões gastos como custos operacionais da Fundação Cidade de Guimarães são um assunto desconhecido pela população vimarenses ou que divide opiniões, tal não acontece em relação aos custos de investimentos em matéria de equipamentos culturais e requalificação urbana, porque levou a alterações urbanas na cidade de Guimarães e no quotidiano das pessoas, e que hoje em dia são equipamentos de pouca utilização e que pouco ou nada oferecem à cidade após a sua construção, como é o caso da Plataforma das Artes e da Criatividade. O investimento público realizado foi aproximadamente de cerca de 42 milhões de euros, entre esses investimentos destaca-se Plataforma das Artes e da Criatividade, com investimento de 14.804.166,67 euros. Os restantes investimentos foram: o Laboratório da Paisagem (2.268.055,56 euros); a Reabilitação Campo de S. Mamede (250.000,00); a Reabilitação do Largo do Carmo (905.091,82 euros); a Requalificação do Toural, Alameda e Rua Sto. António (5.970.000,00 euros); a Casa da Memória (4.254.899,52 euros); a Requalificação do Espaço Público Zona Couros (2.215,268,00 euros); o Camp Urbis – Instituto de Design (2.722.500,00 euros); o Camp Urbis – Centro Avançado de Formação Pós-Graduada (3.188.350,00 euros); o Camp Urbis – Centro de Ciência Viva (605.000,00 euros); a Qualificação da Veiga de Creixomil (4.267.055,58 euros); o Projeto de Interpretação de Couros (248.335,00 euros). Na minha opinião e perceção, a população de Guimarães, de uma forma geral, tem a ideia de que foram investimentos com custos elevados e com pouca utilidade.
Atualmente, passados 6 anos após a construção e requalificação desses equipamentos, podemos confirmar essa realidade, como, por exemplo, a Plataforma das Artes e da Criatividade, construída para o projeto Guimarães 2012, que teve um custo aproximadamente de 15 milhões de euros, construída em cima do antigo mercado de Guimarães, no entanto, não veio oferecer nada de novo face ao que a cidade oferecia, porque o Centro Vila Flor, São Mamede e outros espaços públicos já oferecem esses serviços. Assim, na minha opinião, Plataforma das Artes e da Criatividade foi um investimento que não se justifica, por dois motivos: primeiramente, como já referi, existem outros espaços na cidade que já oferecem esses serviços ligados a cultura; e, por outro, porque não existe uma procura que se justifique um investimento daquela dimensão, ou seja, para já, a cidade de Guimarães não tem mercado suficiente para satisfazer a oferta que existe. É importante de referir que o custo da obra da Plataforma das Artes e Criatividade foi de 14.804.166,67 €.
Em suma, obviamente que naquele ano 2012 houve um aumento de turistas, nº de dormidas, nº eventos culturais e também impactos no comércio local e outros fatores positivos na economia. No entanto, na minha opinião, os investimentos foram mal direcionados porque, segundo o PORTADA, existem apenas 460,9 espectadores por eventos culturais em Portugal, em média, ou seja, os portugueses não têm essa mentalidade, logo parte do investimento feito devia ter sido mais direcionado nesse sentido, isto é, para a educação cultural. E, por fim, é notório que os investimentos feitos, nomeadamente na Plataforma das Artes e da Criatividade, não representam a realidade de Guimarães. Não será este um erro recorrente em Portugal?

Marcelo Silva

Bibliografia:
Impactos, Económicos e Sociais, Relatório Executivo. Fundação Cidade Guimarães 2012.
Webgrafia:

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia e Política Regional Regional”, do curso de Mestrado em Geografia do ICS, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2017/2018)